Quando o ódio se transforma em ódio por nós mesmo

Este é um grande problema do ser humano ao enfrentar a culpa patológica que sente por odiar alguém a quem também se ama, converte o ódio em ódio por si mesmo, até que toda a sua energia seja esgotada pela sua autotortura e a sua consciência se torna alterada e a personalidade mergulha num estado de paralisia, no que diz respeito às atividades externas.

Mas o ego armazena bastante energia para contínuos ataques ao eu. Ao longo do tempo de sucessivos ataques ao eu, as atividades em fantasiar através da auto-acusação e autopunição, torna cada vez mais a personalidade mobilizada e alheia ao mundo externo, por não ter condições de suportar os defeitos ou o lado mau que enxerga no objeto de amor externo.

Atentem, caros leitores, como é surpreendente verificar que as pessoas deprimidas alternam entre a depressão e as explosões de mau-humor. Como é difícil para estas pessoas, eu diria intolerável, odiarem a si próprio ou aos pais que têm (ou tiveram) e dos quais se acham dependentes da segurança deles.

Então, perante tanta culpa e confusão interna, o meio mais rápido para obter alívio desse deletério ódio de si é exteriorizá-lo mais uma vez, pois o ódio não precisa ser dirigido contra os pais (ou pai), que constitui verdadeiro alvo, mas contra qualquer pessoa ou coisa que possa servir de alvo de substituição.
Uma paciente veio queixar-se de depressão. Brigava muito com o marido, já não tinha uma vida sexual satisfatória. No decorrer da análise, ela foi se lembrando do ódio que sentia pelo pai por ter lhe batido uma vez, quando espiava pelo buraco da fechadura da porta do quarto e o via com a mãe, nus na cama e batia desesperadamente na porta. Seu pai saiu e lhe deu uma surra.

No nascimento do seu filho ela engordou muito, e já se sentia mal com o seu corpo. Tinha vergonha. Já não mantinha mais, regularmente, sexo com o marido. Comia demais, até cair em depressão. Quando se recuperava destes estados, brigava com o marido, chegando até a agressões físicas. Tudo o que fazia na vida, no trabalho, dependia dos conselhos do pai. Contava as brigas para o pai e precisava de todo tipo de conselho dele. Perdera também bons empregos porque brigava e não cumpria ordens dos seus superiores, que eram homens. Daí então, entregou-se completamente.

Assim, numa acepção superficial, se dermos a uma pessoa deprimida algum motivo para ficar zangada, proporcionaremos a ela um meio de fugir, por algum tempo, da sua depressão. Não por muito tempo, uma vez que logo começa a sentir-se culpada de novo e a odiar a si própria, mais uma vez.

Aí é que o clínico tem que saber diferenciar. Tem que ficar atento às características principais da depressão que habitualmente continuam a persistir em sintomatologia para o diagnóstico fundada em atitudes culturais que exerciam sobre o ator social uma influência muito grande, através das crenças religiosas no inferno, pecado, culpa perante a Deus e punição eterna. Estas premissas perderam a força. Basta observar na fala do suposto deprimido que ele não tem mais a convicção de ter cometido o “pecado imperdoável” , Isso era o principal para o sujeito expressar essa convicção sintomática.

Além disso, o clima geral de opinião pública, relativamente à moralidade, sofreu grandes mudanças nas últimas décadas. O que será então, a minha hipótese de ódio por ter ódio de mim mesmo?

Eu começaria tentando responder esta pergunta com o outro lado dela: o gostar de gostar. Quando o ser humano gosta de gostar de si e das pessoas que fazem parte do seu convívio, ele se torna altruísta, um ser contemplativo que dá graças a tudo o que faz e só aí então, é capaz de partir para novas tarefas; está sempre vitalizado e entusiasmado com as possibilidades que a vida lhe contempla.

Já o odiar por odiar a si próprio, leva o sujeito a ser superficial, o que eu denomino de um dispositivo psíquico incapaz de controlar os desordenados impulsos instintivos oriundos do inconsciente impessoal ou id. Esta superficialidade nos remete a pensar em aparelho do funcionamento basicamente primário, um ego rudimentar, como uma criancinha, que quando inundada por sentimentos estranhos ao seu controle entra em crises de explosões e até quebra os seus brinquedos para depois ser castigada e dormir.

Estas forças internas se tornam superiores às suas condições de conhece-las e tentar conte-las. Sem a ajuda de sua mãe ou de quem a cria, isso se torna impossível.

Quando se torna adulto, se apresenta como uma pessoa frívola, normalmente não tem perspectiva e é desprovida de perseverança. A única reação que é possível perante a todas as situações externas que ela enfrenta é contornada com uma falta de comprometimento consigo mesma. Às vezes, o ego elabora mecanismos de defesa obsessivos, na esperança de salvaguardar a integridade dessa pessoa.

As pessoas que se envolvem, constantemente, em tanto ódio por si mesmas, na minha prática clínica, deixam bem claro o desconhecimento da “origem” não-sexual da sua sexualidade. Freud se referia a este tema como sendo o eixo da teoria que via na gênese da sexualidade infantil um fenômeno implantado “de fora” no psiquismo nascente do sujeito.

Ao lado da sexualidade corpórea, secreta, por assim dizer, pelos instintos (primeiro afluente genético da sexualidade), a criança recebe uma sexualidade que lhe é inoculada pelo investimento do adulto. Sendo assim, é fácil perceber o que distingue esta origem não-sexual da sexualidade do estímulo violento, também produtor de sexualidade.

No primeiro caso, a sexualidade não existe para o sujeito que sofre a ação da excitação, mas está presente no desejo do objeto fonte de estimulação(…); ele não consegue perceber que é também objeto de desejo para o outro. Isto lhe proporciona uma baixa estima e é fonte de raiva, frustração, no primeiro momento da sua própria pessoa, por achar que não tem atrativos físicos ou intelectivos, Com o passar do tempo, isso reverte em ódio por quem o criou.

No segundo, é dado ao sujeito, quando ele é criança, a possibilidade de reconhecer no trauma não-violento, o índice libidinal do estímulo traumático, e toma para si os traumas como fontes geradoras de prazer(…). Quando adulto, ele insurge contra qualquer pessoa que possa usar como objeto de ataque, para que depois, o agredido possa tornar-se o objeto fantasmático, como agressor nas suas fantasias patológicas.

Temos como exemplo, o caso clínico citado no início. Esta mulher se desesperava quando o marido falava na separação. Era o bastante para se autotorturar, odiando-se por não saber ser mulher para ele, e um ser humano completo para continuar vivendo em sociedade.

Em resumo, a origem não-sexual da sexualidade pode ser pensada como uma condição necessária ao desenvolvimento normal, equilibrando o psiquismo. Sentir ódio por si por odiar a origem não-sexual da sexualidade é um fator traumático responsável pela emergência de defesas patológicas mobilizadas para proteger o ego ou a identidade do risco de destruição.

Sendo assim, eu, enquanto psicanalista, questiono o crescente número de diagnósticos de depressão, baseado nos pressupostos acima e nas condições necessárias para identificar tal entidade nosológica, denominada depressão.

No domínio da psicologia e da psiquiatria, a palavra depressão tem tido uma utilização vernácula e encontra-se no domínio da linguagem técnica da economia e da geografia.

Na economia, aparentemente, sabemos que significa um desequilíbrio na balança financeira. Na geografia, é quando um relevo sofre desgaste na sua vegetação e é devastado pelos fenômenos da natureza. Na área “psi”, quando tomamos por empréstimo tal conceito, tem-se então, um desenrolar no mínimo, confuso e de diferentes entendimentos nosológicos e etiológicos ao longo de décadas de estudos. Do ponto de vista científico, apresenta, ainda, inúmeras incertezas, incoerências e inexatidões.

“Quando entendidas no decurso total do ciclo de vida, as perturbações depressivas têm evidenciado-se repletas de contradições no que toca a sua natureza e definição heterogêneas na sua expressão, multicausais na sua explicação (como etiologias educacionais, culturais, ambientais, orgânicas e com prognósticos variáveis).” Kovascs, M.(1997), Depressive Disorders in Childhood: An Impression, Estetic Landscape. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 38,287-298.

É entendida no DSM IV , CID 10 e Organização Mundial de Saúde como perturbação do humor, distúrbio da disposição ou desordem afetiva.

Cabe, então, a pergunta:
Como entender
1º – a determinação inequívoca dos comportamentos essenciais e específicos relativos à sua manifestação em cada momento do desenvolvimento humano?

2º – As explicações abrangentes dos mecanismos psicológicos, biológicos e sociais subjacentes à sua ocorrência?

E finalmente, a identificação dos formatos mais adequados para o seu diagnóstico?

Até onde minhas experiências psicanalíticas alcançaram, o entendimento a respeito de um provável diagnóstico de depressão, me levam a pensar porque o ser humano coloca nestas posições defensivas a sua liberdade sexual e a sua culpa em não dar conta de suas limitações na disputa da supremacia HOMEM x HOMEM, para tomar posse de sua maturidade genital.

O sujeito, por mais dotado e capaz que seja em sua personalidade prática ou ego adulto, está e sempre estará minado pelo legado de um ego enfraquecido da infância(…). E a qualquer momento , ficará sujeito às intempéries da sua vida, que os desníveis de temporalidade presente e regressão ao passado, os remeterá às tristezas do dia-a-dia. Mesmo tendo dinheiro, casa, família, etc., ele é levado ao encontro de choques de ondas que o abaterão em algum momento da sua vida.

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